Hoje o dia foi estranho. Não sei o que acontece comigo, se eu estou amadurecendo ou se estou cada vez mais infantil, mas estou por descobrir coisas novas e que tem mudado meus conceitos e filosofias diante a vida.
Acredito que uma das maiores questões, hoje pelo menos, podemos denominar ESCUTA. Coisa tão trabalhosa de se acontecer, não acham? Todos querem ser ouvidos, mas quem quer escutar?
Essa questão me assalta e não é de hoje. Pelo contrário, já faz tempo que me questiono quanto a isso. Mas deixa-me explicar o que houve e porque isso voltou tão forte agora, exatamente hoje.
Fui a faculdade hoje e estava numa tentativa de ajudar uma amiga com a prova de história do teatro I, fiquei divagando sobre teatro grego, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e afins, normal. Depois fomos pro ensaio e lá a primeira coisa, um amigo começou a falar que vamos receber críticas (isso mesmo, futuro) e que muitas serão de sacanagem e não serão construtivas etc, eu retruquei de volta que TODA CRÍTICA É CONSTRUTIVA, SÓ DEPENDE DE COMO VOCÊ VAI RECEBÊ-LA. Acho que ele não gostou de ouvir isso, pois começou a falar que ele já viveu isso de espetáculo e eu não, então quando eu sofrer na pele vou saber do que ele tá falando e começou a se exaltar um pouco, percebi pelo jeito que ele tava a utilizar na argumentação dele. Mas permaneci na minha ideologia e respondi: se você souber receber uma crítica, mesmo que ela tenha sido pensada pra te sacanear, ela será construtiva, a crítica é exatamente a forma como você a escuta e utiliza. Segui a falar que não me importa o que as pessoas vão pensar do meu trabalho e sim o que eu penso do meu trabalho, se eu achar que o meu trabalho está bom então estarei feliz com isso, as pessoas gostando ou não. Daí que ele pareceu ficar mais puto ainda com o que eu dizia, mas a briga terminou por conta do terceiro (amigo) que deu o parecer dele e o pessoal que faltava e chegaram.
Diante isso percebi uma atitude mais positiva em relação as pessoas, de minha parte. Pois, talvez, antes eu dissesse que concordo, todo mundo é filho da mãe e que não tem nada que falar da gente e que são uns escrotos que não gostam da gente e que não sei porque falam da gente e sim que deveriam olhar pros seus próprios umbigos e continuaria séculos num pensamento destrutivo e negativo. Mas por que eu faria isso? Cada um tem liberdade pra pensar o que quiser, cabe a mim filtrar as informações exteriores e aceitar o que eu quero e o restante, simplesmente, devo respeitar e procurar entender/ compreender...Creio que valha mais a pena ter uma atitude assim do que querer negativizar tudo, como antes.
Fui pra aula reflexiva quanto a algumas coisas. Tive uma aula sobre Zé Celso, figura super incomum e inteligente demais, na minha visão. Anotei um monte de coisas, vi as peças com curiosidade e cheguei até a ligar o trabalho dele com alguns pensamentos meus. Inclusive uma citação dele acho interessante colocar pra vocês.
Numa entrevista feita ao Zé Celso ele diz "eu não faço Teatro. Eu faço TE-ATO."; ou seja, um ato a ti, um ato conjunto a ti, algo que passa por você e por mim e não algo pra você ver. Acho que é exatamente isso que procuro nos meus trabalhos e ideais de arte, algo que se ligue com as pessoas, que afete, interfira, transgrida* (termo utilizado referencial das aulas do Fred Tolipan).
Cheguei na aula do Fred então com a cabeça já a mil, eis que na aula dele, sempre uma loucura, um querendo falar por cima do outro, o Fred já fala rápido e tudo junto. Ele pára e dá um toque na gente a dizer que a turma está prestes a ruir, ir pro espaço, empludir (acho que é assim que escreve), mas que podemos reverter isso, que ele fala isso porque na turma um não tem respeito pelo outro, as pessoas não conseguem se ESCUTAR, um fala por cima do outro, já olha como "que saco", não quer saber o que o outro tem dúvida e não se importa com o que o outro pensa. Comecei a reparar e concordei total com o que ele disse. Depois mais um toque, dessa vez destinado a uma pessoa por algo que aconteceu e mais uma discussão.
Saí da aula e vindo pra casa com amigos da turma conversávamos, conversamos sobre isso, depois com um só, depois com o outro só também e por final peguei um texto que xeroquei da pasta do Fred quando fui xerocar o "Leitura Transversal", eu tinha visto esse e resolvi xerocar pra ler por interesse mesmo, o nome é "A Escuta", creio que retirado do livro "O Óbvio e o Obtuso" de Roland Barthes (editora Nova Fronteira). Na leitura do texto ele se refere a três tipos de escuta, podemos dizer que: índice, significativa e psicanalítica.
- Escuta de índice: quando um lobo escuta um ruído ele associa a uma presa, quando um alce escuta um ruído ele associa a um predador, quando uma criança (bebê) escuta um ruído ela associa a mãe (desejo); Logo temos a escuta de índice localizada em - presa, predador e desejo;
- Escuta significativa: quando você escuta um ruído e tenta decodificá-lo, ou seja, tenta dar um significado pra aquele ruído. Ex: um barulho na cozinha, vidro, um copo quebrou;
- Escuta psicanalítica: o inconsciente do psicanalista que se prepara pra escutar o inconsciente do paciente. Como numa conversa de telefone, um fala de um lado e o outro fala do outro, o telefone liga os dois. O inconsciente do psicanalista seria como a parte onde se coloca o ouvido, ele se liga com o inconsciente, através do que o paciente fala, e traz à tona as possibilidades de origem daquelas atitude, sensação e afins;
Li esse texto e fiquei fascinada a pensar sobre tudo isso, várias coisas com olofotes mega-fortes e piscando pra mim na minha cabeça. Comecei a pensar sobre tudo e principalmente sobre mim. Eu, normalmente, não falo muito, gosto de escutar e observar. Sempre fui fascinada por Libras (linguagem de surdo/mudo). Sempre gostei de fechar os olhos e fingir que não tenho mais como ver pra poder aguçar outros sentidos. Sempre penso sobre todos os sentidos em igual e essa relação com as pessoas. Me preocupo e me importo com isso. E vi que estou caminhando pra o que eu tanto queria no meu discurso da aula de composição do ator com o Alex..."me desconhecer para me conhecer"...
Agora deixo a questão para vocês: Todo mundo quer ser escutado, mas ninguém quer escutar. Por que? Por que não escutar o que os outros tem a dizer e respeitar algo que não seja só do que você vê e pensa? Por que não aceitar que não é o único umbigo do mundo? Por que não ser criticado e ter que ser o melhor em tudo e fazer tudo perfeito? Por que?
Maravilhoso mundo de Maya? Talvez, mas pelo menos eu tô a tentar melhorar e amadurecer. Tente você também, que tal?
terça-feira, 7 de abril de 2009
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